PCC infiltrou ex-estagiário do MP, chefe de investigadores e ex-policial civil em São Paulo, apura operação

Polícia

Operação deflagrada nesta terça-feira (9) pelo Ministério Público de São Paulo prendeu três suspeitos de atuarem como infiltrados do Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro de órgãos estaduais. Foram presos um chefe de investigadores da Polícia Civil, um ex-policial civil e um ex-estagiário que trabalhava no próprio MP.

De acordo com as investigações, o grupo participava de um plano para assassinar um promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e também operava um esquema de extorsão contra investigados – incluindo integrantes da própria facção que teriam planejado a morte desse membro do MP.

O ex-estagiário, que hoje exerce a advocacia, é acusado de acessar indevidamente bancos de dados do Ministério Público para identificar criminosos e cobrar dinheiro em troca de uma suposta proteção nas investigações. Ele contava com a ajuda do policial penal e do ex-policial civil presos na ação.

Além disso, o chefe de investigadores detido na operação é suspeito de vender informações privilegiadas a um criminoso investigado, mediante pagamento.

Foram cumpridos três mandados de prisão temporária e dez de busca e apreensão nas cidades de Campinas e Cardoso, no interior paulista – incluindo um endereço ligado a um policial penal. As corregedorias das polícias Civil e Penal, além da Comissão de Prerrogativas da OAB, participaram das diligências, especialmente para as buscas em escritório de advocacia.

O chefe de investigadores preso atuava na Delegacia de Investigação sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas à época de duas operações que apuravam o plano de atentado contra o promotor e um esquema de lavagem de dinheiro vinculado a dois traficantes. O ex-policial civil preso teria auxiliado o ex-estagiário, que trabalhava em uma promotoria criminal do MP na mesma cidade.

A chamada Operação Infiltrados é um desdobramento de duas outras ações deflagradas em 2025:

  • Operação Pronta Resposta (agosto): apurou a atuação de organização ligada ao PCC que planejava atentado contra o promotor de Justiça do Gaeco Amauri Silveira Filho.
  • Operação Off White (30 de outubro): visou desmantelar esquema de lavagem de dinheiro de dois dos traficantes mais procurados do Brasil, entre eles Sérgio Luiz de Freitas (Mijão ou Xixi), um dos principais chefes do PCC em liberdade.

Em nota, o MP afirmou que “todos os fatos estão sob apuração no Gaeco” e que o apoio das polícias Militar, Civil e Penal demonstra o trabalho conjunto das instituições “para a depuração de seus quadros, garantindo que a sociedade sempre tenha à disposição um serviço público eficiente, contínuo e transparente”.

Reunião suspeita às vésperas de operação

As investigações do Gaeco indicaram que, uma semana antes da deflagração da Operação Pronta Resposta, um dos principais acusados – apontado como executor do plano para matar o promotor – se reuniu com o chefe dos investigadores da Dise de Campinas. Vídeos encontrados em materiais apreendidos mostram o encontro, ocorrido justamente às vésperas da ação que frustraria o suposto atentado.

O Gaeco apura quais informações privilegiadas e sensíveis teriam sido repassadas ao criminoso pelo investigador.

Extorsão contra membro do PCC

Em outro braço da investigação, derivado das mesmas operações, o Gaeco descobriu que um dos principais integrantes da organização criminosa era vítima de extorsão praticada por alguém que usava informações privilegiadas.

A investigação apontou que o responsável pela extorsão seria o então estagiário do MP, que teria se infiltrado propositalmente em uma das promotorias criminais de Campinas para fins criminosos. Usando bancos de dados e sistemas de pesquisa, e com ajuda de outros agentes públicos – incluindo o policial penal e o ex-policial civil presos –, ele identificava criminosos de alto poder econômico e cobrava dinheiro em troca de falsa proteção.

O ex-policial civil já havia sido expulso da corporação anos atrás pelo crime de extorsão mediante sequestro. Também há indícios de que os atos de extorsão tenham sido praticados pela internet em um escritório de advocacia.

Cobrança de R$ 500 mil

Na análise do celular de Maurício Silveira Zambaldi, o “Dragão” – empresário preso no ano passado sob suspeita de participar do plano contra o promotor –, foi encontrada uma cobrança de R$ 500 mil. A mensagem condicionava o não envio de informações ao Gaeco sobre a atuação dele ao pagamento.

Quem cobrava dizia estar em Balneário Camboriú (SC), mas o Gaeco identificou que se tratava de um advogado que, à época, trabalhava em uma Promotoria Criminal do MP de Campinas e acessava processos da organização criminosa e de outros “potenciais alvos” de extorsão.

Ainda não se sabe se algum investigado chegou a pagar. A operação desta terça também busca colher mais provas sobre esse ponto.

O ex-estagiário pediu para deixar a promotoria semanas após as operações que envolviam “Dragão” e passou a atuar em um escritório de advocacia na região de Campinas, que também foi alvo de buscas na Operação Infiltrados.

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