China envia “embriões artificiais” ao espaço para entender se humanos podem se reproduzir fora da Terra

Mundo

Em gravidade zero, tarefas cotidianas como comer, dormir ou ir ao banheiro se tornam verdadeiros desafios. Mas até hoje, a ciência havia deixado de lado uma questão fundamental: seria possível gerar um bebê no espaço? A China acaba de dar o primeiro passo para responder a essa pergunta.

Cientistas chineses enviaram à estação espacial do país estruturas semelhantes a embriões humanos, cultivadas a partir de células-tronco. Esses modelos embrionários — que não têm potencial para se desenvolver além do estágio inicial — passarão cinco dias em órbita baixa da Terra, a cerca de 400 km de altitude.

O objetivo é observar como a microgravidade afeta a fase mais delicada do desenvolvimento humano: o período pós-fertilização, quando a maioria dos órgãos começa a se formar. Qualquer anormalidade nessa etapa pode levar a malformações congênitas. Com os resultados, os pesquisadores esperam identificar riscos e, futuramente, criar intervenções para reduzi-los.

Importante destacar: não há sexo envolvido no experimento. A China não enviou astronautas para tentar a concepção in loco. Em vez disso, os “embriões artificiais” foram preparados na noite anterior ao lançamento e entregues à agência espacial 12 horas antes da decolagem. Dois tipos de modelos foram enviados: um cultivado sobre células uterinas e outro dentro de um chip microfluídico. Amostras idênticas permanecem em laboratórios na Terra para comparação.

Após os cinco dias, os espécimes serão congelados e trazidos de volta para análise detalhada.

Não é o primeiro estudo do tipo. Há três anos, cientistas japoneses levaram embriões de camundongos à Estação Espacial Internacional (EEI) e concluíram que a microgravidade não causou efeitos significativos. Contudo, camundongos não são humanos, o que torna a pesquisa chinesa mais relevante — e polêmica.

Até pouco tempo, esse tipo de estudo era proibido por acordos internacionais que limitavam a pesquisa com embriões humanos in vitro a 14 dias. Em 2021, a Sociedade Internacional de Pesquisa com Células-Tronco flexibilizou a regra, desde que a equipe passe por rigorosa revisão ética.

“Ao comparar o desenvolvimento das amostras do espaço e da Terra, poderemos identificar os fatores que afetam o crescimento embrionário humano inicial no ambiente espacial”, afirmou Yu Leqian, líder do projeto, em comunicado.

Os desafios do sexo e da gestação fora da Terra

O experimento chinês é apenas o ponto de partida. Se um dia a humanidade quiser colonizar a Lua ou Marte, será preciso enfrentar obstáculos muito mais complexos.

Até hoje, nenhum astronauta admitiu ter feito sexo no espaço. E a física não ajuda: pela terceira lei de Newton, qualquer impulso empurra os parceiros em direções opostas. Seria necessário usar sistemas de contenção, como sacos de dormir acopláveis ou tiras elásticas.

Além disso, na microgravidade, o sangue tende a se acumular na cabeça, o suor não escorre — forma bolhas que grudam na pele — e a lubrificação natural pode não funcionar como na Terra.

Mesmo que a concepção ocorresse e a gestação chegasse ao fim, restariam perguntas assombrosas: como seria o desenvolvimento ósseo de um bebê nascido no espaço? Ele conseguiria, algum dia, visitar a Terra e simplesmente ficar em pé?

“Será que algum dia seriam capazes de vir à Terra e realmente ficar de pé?” questionou Kris Lehnhardt, ex-professor assistente de medicina de emergência da Universidade George Washington, em um painel em 2017.

Os experimentos da China, ainda que limitados a embriões artificiais, representam o primeiro passo para começar a responder essas perguntas.

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